O problema estrutural típico da casa de alto padrão em Belo Horizonte não está na superestrutura. Está abaixo do nível da rua: subsolo escavado em lote inclinado, com divisa dos dois lados e construção vizinha encostada. É a situação em que a estrutura precisa resolver, ao mesmo tempo, a carga da casa e a estabilidade do terreno em volta.
Escavar para o subsolo significa cortar o terreno até a divisa, e o solo do vizinho precisa continuar onde está. A contenção definitiva geralmente é a própria parede do subsolo em concreto armado, dimensionada para o empuxo — mas ela só existe depois de executada, e a escavação acontece antes.
Esse intervalo é o momento crítico da obra. Ele é resolvido com contenção provisória ou, mais frequentemente, com escavação executada por trechos: abre-se um segmento, executa-se a parede daquele trecho, e só então se abre o seguinte. É mais lento e é o que impede o talude de se movimentar levando junto a fundação do vizinho.
Um detalhe que gera erro: a parede de subsolo enterrada dos dois lados recebe empuxo e, muitas vezes, é dimensionada contando com o travamento da laje do piso superior. Se a sequência executiva não respeitar isso — escorar antes de a laje existir, ou reaterrar antes do travamento — a parede recebe carga numa condição para a qual não foi calculada.
Por isso o projeto de subsolo não é só desenho de armadura: inclui a sequência de execução e de reaterro. Quando essa sequência não é comunicada ao canteiro, o cálculo correto produz estrutura com fissura.
Terreno em declive conduz água na direção do corte, e o subsolo está justamente ali. Impermeabilização, dreno na face externa da parede e destino definido para a água captada precisam ser projetados junto com a estrutura.
Vale registrar por que isso não admite economia: a face externa da parede de subsolo fica inacessível para sempre depois do reaterro. Qualquer falha ali só pode ser tratada por dentro, de forma paliativa, ou escavando tudo de novo. É o oposto de uma fachada, que se pode retratar quando necessário.
Casa de alto padrão em lote inclinado costuma ter três ou quatro níveis, e o elevador residencial deixou de ser exceção. Ele impõe exigências que precisam existir desde o lançamento: uma caixa contínua, alinhada e com prumo rigoroso atravessando todos os pavimentos, poço na base com impermeabilização, folga no topo e reforço para a fixação das guias.
Encaixar isso depois da estrutura definida é o pior dos cenários — significa furar lajes já executadas em sequência vertical, o que é justamente a intervenção que mais compromete. Mesmo quando o elevador não vai ser instalado agora, vale deixar a caixa prevista e ocupada por outra função, porque a diferença de custo hoje é pequena e a alternativa futura é inviável.
Boa parte das intervenções de alto padrão na capital acontece em imóvel comprado para ser transformado. E o ponto de partida costuma ser desconfortável: não existe projeto estrutural do que está lá.
Sem esse documento, não se sabe onde está a armadura, qual a capacidade real dos elementos nem o que pode ser removido. A investigação substitui o projeto ausente: identificação do sistema construtivo, localização de armadura por ensaio não destrutivo nos pontos que serão alterados, e avaliação da laje quando se pretende acrescentar carga — piscina em nível superior, contrapiso espesso, pedra maciça, parede nova.
É trabalho que antecede o orçamento da reforma. Quando é pulado, a decisão sobre o que derrubar acaba sendo tomada no canteiro, por quem está com a marreta na mão.
O trabalho segue as NBR 6118 e 6122, com controle do concreto pela NBR 12655. A conferência de armadura antes da concretagem é obrigatória nas nossas obras — é o único momento em que ainda existe correção barata.
O desenho está em projeto arquitetônico em Belo Horizonte. Para obra fora da nossa região de execução, veja projeto à distância.
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