Desafios do setor

Escassez de mão de obra qualificada na construção

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Escassez de mão de obra qualificada na construção

Publicado em 16/06/2026  •  Desafios do setor

Um problema que já aparece nos números

A dificuldade para contratar mão de obra qualificada deixou de ser uma percepção isolada de construtoras e passou a aparecer com clareza nas pesquisas setoriais. Segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) citado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), 82% das empresas do setor relataram dificuldade para contratar trabalhadores no primeiro trimestre de 2025 — o maior índice desde 2012. No recorte de serviços especializados, como instalações elétricas, hidráulicas e acabamento, a dificuldade de contratação chegou a 70% das empresas consultadas.

O quadro não é exclusividade brasileira, mas aqui se soma a fatores estruturais próprios. A Pesquisa Global de Escassez de Talentos da ManpowerGroup, referente a 2026, indica que 8 em cada 10 empregadores no Brasil têm dificuldade para preencher vagas — um sinal de que o problema atravessa vários setores, mas atinge a construção civil com intensidade particular, dado o tipo de qualificação técnica exigida.

As causas apontadas pelo setor

Dirigentes da CBIC e pesquisadores têm apontado um conjunto de causas que se reforçam mutuamente:

  • Envelhecimento da força de trabalho: a idade média dos trabalhadores da construção já está em torno de 41 a 42 anos, sem reposição suficiente de mão de obra jovem.
  • Queda na formação de engenheiros: o Brasil forma cerca de 6 engenheiros por 100 mil habitantes ao ano, contra aproximadamente 35 em países como Estados Unidos, China e Japão. Entre 2015 e 2023, as matrículas em cursos de engenharia caíram 25% no geral — e 52% especificamente em engenharia civil.
  • Mudança de geração: parte dos jovens tem preferido atividades informais ou setores de serviços vistos como mais confortáveis, refletindo uma imagem antiga do canteiro de obras — pesada, pouco tecnológica — que já não corresponde à realidade de muitos empreendimentos.
  • Escassez em funções específicas: a CBIC cita como exemplo o laboratorista de pavimentos, profissional responsável pelo controle de solos, que se tornou uma figura rara no mercado, além da falta de operadores capacitados para equipamentos modernos e automatizados.

Impacto direto em prazos, custos e demanda

A escassez de mão de obra pressiona diretamente prazos de entrega, custos de construção e a qualidade final das obras — justamente em um momento de forte atividade do setor. Em 2024, o investimento em infraestrutura no Brasil atingiu recorde histórico de R$ 280 bilhões (2,3% do PIB), cerca de 80% oriundo de capital privado. No primeiro semestre de 2026, a construção civil gerou 168.962 empregos formais. Do lado da demanda habitacional, o déficit no Brasil ultrapassa 5,8 milhões de unidades, principalmente em áreas urbanas — o que mantém a pressão por mais obras, e portanto por mais trabalhadores qualificados, mesmo com a oferta de mão de obra limitada.

Capacitação: parcerias entre setor produtivo e ensino técnico

A resposta mais imediata do setor tem sido investir em qualificação. A CBIC, em conjunto com o Ministério do Trabalho e Emprego, o Sesi e o Senai, discute desde o início de 2025 um pacote de qualificação para repor e atualizar o quadro de trabalhadores, dentro do que a entidade chama de Plano Nacional de Capacitação para a Construção Civil no Canteiro de Obras. A pauta também inclui iniciativas de diversificação da força de trabalho, como o programa Elas Constroem, voltado à maior participação feminina no setor.

Tecnologia e industrialização como resposta estrutural

Para lideranças da CBIC, parte da solução para a escassez de mão de obra não é apenas formar mais gente, mas também precisar de menos gente para as mesmas tarefas repetitivas — transferindo trabalho artesanal para processos industrializados e digitais. A entidade tem defendido a disseminação do BIM (Building Information Modeling) para reduzir erros de projeto e retrabalho em obra, além da modernização de processos construtivos.

Esse movimento aparece de forma concreta no crescimento da construção modular e pré-fabricada no país. O mercado brasileiro de construção pré-fabricada deve crescer cerca de 5,9% ao ano entre 2025 e 2029, podendo alcançar R$ 89,6 bilhões, segundo dados de mercado do setor. Na prática, a industrialização desloca parte do trabalho do canteiro para ambientes controlados de fábrica, onde componentes são produzidos com maior padronização e depois montados na obra — um modelo que pode reduzir o desperdício de materiais em até 35% e diminuir a exposição da obra a atrasos causados por fatores climáticos.

O que fica para quem constrói ou contrata uma construção

Para empresas e clientes que avaliam um construtor, a escassez de mão de obra qualificada é um fator relevante de risco de prazo e de variação de custo em qualquer obra de médio ou grande porte. Construtoras que investem em equipes próprias estáveis, em processos padronizados e em métodos construtivos que dependem menos de mão de obra escassa tendem a estar mais protegidas das oscilações desse mercado — um critério tão relevante quanto portfólio ou localização na hora de escolher com quem construir.

Fontes

  • CBIC – Câmara Brasileira da Indústria da Construção, "Escassez de mão de obra desafia construção civil e reforça agenda de qualificação e inovação"
  • CBIC – Câmara Brasileira da Indústria da Construção, "Primeiro Quintas da CBIC de 2025 debate a falta de mão de obra qualificada na construção"
  • CNN Brasil, "CBIC: Escassez de mão de obra qualificada está se agravando na construção"
  • Fundação Getulio Vargas (FGV) – pesquisa sobre dificuldade de contratação no setor da construção, citada pela CBIC e pela imprensa especializada
  • ManpowerGroup, Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026
  • Jornal do Comércio, "A escassez de mão de obra ameaça o crescimento da construção civil no Brasil"
  • Dados de mercado sobre construção modular e pré-fabricada no Brasil (Expoconstruir e associações do setor, incluindo ABCIC – Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto)

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