Publicado em 08/09/2026 • Geotecnia
Antes de decidir se uma casa vai apoiar em sapata, estaca ou radier, há uma pergunta que nenhum projeto responde no papel: o que tem embaixo do terreno? A sondagem de simples reconhecimento com SPT (Standard Penetration Test) é o ensaio que responde a isso e, embora custe uma fração do valor da fundação, ainda aparece como item opcional em muita obra residencial. Quando o solo surpreende no meio da escavação, o prejuízo raramente cabe no orçamento original.
A ABNT NBR 6484:2020 é a norma que define o método. Ela descreve dois sistemas de execução — manual e mecanizado — e ambos têm a mesma finalidade: fornecer três informações objetivas sobre o subsolo. Primeiro, os tipos de solo e a profundidade em que cada camada ocorre. Segundo, a posição do nível d'água, quando houver, durante a execução do furo. Terceiro, o índice de resistência à penetração, o famoso N, medido metro a metro.
O procedimento é mecanicamente simples e por isso mesmo confiável: um martelo padronizado de 65 kg cai de uma altura fixa sobre a haste que crava um amostrador-padrão no fundo do furo. Conta-se quantos golpes são necessários para cravar os 30 cm finais, depois de uma cravação inicial de 15 cm que serve apenas para vencer o solo remexido. Esse número é o N-SPT. A perfuração começa com trado-concha ou cavadeira manual até 1 m e segue com trado helicoidal até encontrar o lençol freático; a partir daí entra a circulação de água.
Junto com o número, o sondador retira uma amostra a cada metro e registra a descrição tátil-visual do solo. É essa combinação que permite afirmar que os três primeiros metros são argila siltosa mole e que a partir de oito metros aparece areia compacta.
O N-SPT sozinho não significa nada. Ele só faz sentido lido ao lado do tipo de solo daquela camada, porque a norma trabalha com duas escalas diferentes.
Em solos não coesivos (areias e siltes arenosos), a classificação é de compacidade: até 4 golpes, areia fofa; de 5 a 8, pouco compacta; de 9 a 18, medianamente compacta; de 19 a 40, compacta; acima de 40, muito compacta.
Em solos coesivos (argilas e siltes argilosos), a escala é de consistência: até 2 golpes, muito mole; de 3 a 5, mole; de 6 a 10, média; de 11 a 19, rija; acima de 19, dura.
A diferença muda a decisão de projeto. Um N igual a 12 numa camada argilosa indica solo rijo, com boa capacidade de suporte; o mesmo 12 numa areia significa apenas compacidade mediana. Ler o número sem olhar a descrição da camada ao lado é o erro mais comum de quem tenta interpretar o boletim por conta própria — e é por isso que essa leitura pertence ao projetista de fundações, não ao empreiteiro.
A quantidade de furos não é uma escolha de orçamento: a ABNT NBR 8036 fixa o mínimo em função da área de projeção da edificação em planta. A regra geral é um furo a cada 200 m², até 1.200 m². Entre 1.200 m² e 2.400 m², acrescenta-se um furo a cada 400 m² excedentes; acima de 2.400 m², o número depende do plano particular da construção.
Existe também um piso absoluto, e é ele que interessa à maioria das obras residenciais: no mínimo dois furos para áreas de projeção de até 200 m² e três furos entre 200 m² e 400 m². Quando ainda não há implantação definida — estudo de viabilidade ou escolha de terreno —, a programação considera distância máxima de 100 m entre furos, com pelo menos três.
Ou seja: mesmo a casa mais modesta, com 120 m² de projeção, exige dois furos. Um furo isolado pode acertar um bolsão de solo firme e esconder uma camada mole três metros adiante — variação lateral que produz recalque diferencial, origem de boa parte das trincas que aparecem meses depois da entrega.
A sondagem é interrompida quando alcança a profundidade prevista, quando o solo se mostra impenetrável à percussão ou quando o avanço fica abaixo de 5 cm em 10 golpes. Cabe aqui um alerta para o relevo acidentado de Piranga e região: parar num matacão e registrar "impenetrável" a quatro metros não é o mesmo que encontrar rocha sã. Blocos isolados dentro do solo residual são comuns em encosta, e uma estaca apoiada sobre um deles pode perder o apoio ao receber a carga real da estrutura.
A ABNT NBR 6122:2019, que rege o projeto e a execução de fundações, trata a investigação geotécnica como etapa integrante do projeto — não como serviço acessório — e vai além do início da obra: determina que investigações complementares sejam realizadas sempre que, em qualquer fase da execução, forem encontradas diferenças entre as condições locais e o que a investigação preliminar indicava, até que a divergência esteja completamente esclarecida. Abriu a vala e o solo não é o do boletim? Reinvestiga-se.
O documento entregue ao cliente também tem conteúdo mínimo. O boletim de cada furo deve trazer o N a cada profundidade, a descrição tátil-visual das camadas, o nível d'água observado, as amostras coletadas e a cota e a locação do furo — sem locação amarrada em planta, não há como saber a que ponto do terreno aquele perfil se refere. E o relatório que acompanha os boletins precisa interpretar o que foi encontrado: perfis das camadas, análise de capacidade de carga e recomendação técnica de fundação.
Quatro cuidados resolvem quase todos os problemas que aparecem em obra:
Recuperar uma fundação subdimensionada significa escorar a estrutura, escavar por baixo do que já está construído e executar reforço — serviço que custa múltiplos do que teria custado o conjunto de furos lá no começo. A investigação geotécnica não é a etapa em que se economiza; é a etapa que decide se todas as outras vão parar em pé.
A Electo Maciel Construtora acompanha cada etapa da obra com engenharia de verdade, do projeto à entrega.
Obras reais da Electo Maciel em Piranga e região. Toque para ver a obra completa.