Conforto térmico

Conforto térmico começa no projeto: o que dizem a NBR 15220 e a NBR 15575

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Conforto térmico começa no projeto: o que dizem a NBR 15220 e a NBR 15575

Publicado em 18/08/2026  •  Conforto térmico

Existe um tipo de defeito de obra que não aparece em vistoria, não gera trinca e não vaza: a casa simplesmente é quente. Quarto que não esfria à noite, sala que vira estufa depois das duas da tarde, corredor abafado o ano inteiro. O morador resolve como dá — ventilador, cortina blackout, insulfilm, ar-condicionado em cada ambiente — e paga essa conta todo mês, para sempre. O problema é que quase todo esse desconforto foi decidido na prancheta, meses antes da primeira parede subir, e custaria pouco ou nada ter sido evitado ali.

O peso disso na conta de luz não é pequeno. Segundo dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), mesmo com uma posse relativamente baixa de aparelhos — cerca de 0,18 equipamento por domicílio em 2022 — o ar-condicionado já era o segundo item mais intensivo em energia no setor residencial brasileiro, respondendo por aproximadamente 17% do consumo das casas naquele ano. A projeção da própria EPE é de crescimento em torno de 5,4% ao ano na demanda elétrica de climatização residencial, chegando perto de 48 TWh em 2035.

O que as normas brasileiras dizem

Duas normas tratam do assunto e se complementam. A ABNT NBR 15220 trata do desempenho térmico de edificações e é onde está o zoneamento bioclimático brasileiro: um mapa que divide o país em zonas climáticas e, para cada uma, indica estratégias construtivas recomendadas — tamanho de abertura, tipo de vedação, necessidade de sombreamento, aquecimento ou resfriamento passivo. A ABNT NBR 15575 (Norma de Desempenho), aplicável às edificações habitacionais, transforma parte disso em requisito verificável: define valores máximos de transmitância térmica para paredes e coberturas, percentual mínimo de área de ventilação e critérios de avaliação do desempenho térmico da unidade.

Vale um alerta para quem vai contratar projeto agora: o zoneamento bioclimático foi revisado. A nova versão da NBR 15220-3 foi publicada em dezembro de 2024 e substitui o mapa de oito zonas que vigorava desde 2005. O país passou a ser dividido em seis zonas principais, da muito fria à muito quente, subdivididas em doze conforme características de inverno e umidade, com base em arquivos climáticos mais recentes (série TMYx de 2007 a 2021) e em simulações de desempenho térmico. Na prática, vários municípios mudaram de classificação — e junto com ela mudam as diretrizes recomendadas. Não dá para copiar a estratégia de um projeto antigo sem reconferir em que zona o município está hoje.

Orientação solar: a decisão mais barata e mais irreversível

Girar a planta no terreno não custa nada enquanto o projeto está em estudo, e é impossível depois que a fundação foi executada. A fachada oeste é a que mais aquece: recebe sol da tarde, no horário em que a temperatura externa já está no pico, e com o sol baixo, entrando fundo pelas janelas. Dormitórios e salas voltados só para oeste, sem nenhuma proteção, são o caminho mais curto para o ar-condicionado obrigatório. A face leste recebe o sol da manhã, mais ameno e mais fácil de sombrear. Área de serviço, garagem, escada e depósito são bons candidatos a ocupar a face mais castigada, funcionando como zona-tampão entre o sol e os ambientes de permanência prolongada.

Ventilação cruzada

A ventilação cruzada é o mecanismo mais eficiente de resfriamento passivo em boa parte do Brasil, e depende de uma coisa simples: aberturas em fachadas opostas, alinhadas com a direção dos ventos predominantes, com caminho livre entre elas. Uma casa com todas as janelas na mesma fachada não ventila de verdade. Portas internas, vãos e bandeiras altas fazem parte desse percurso, assim como aberturas altas para a saída do ar quente, que sobe. Esse é um dos pontos em que o projeto de arquitetura e o de instalações precisam conversar cedo: um armário planejado ou um shaft no lugar errado fecha o caminho de ar que a planta previa.

Envoltória: cobertura, parede e cor da fachada

Em casa térrea, a cobertura é de longe a maior fonte de ganho de calor — é a superfície que recebe sol a pino no verão. Telhado sem forro, sem manta e sem ático ventilado transfere esse calor direto para dentro. Manta refletiva sob as telhas, forro com câmara de ar ventilada e telha de menor absortância resolvem boa parte do problema por um custo modesto perto do de climatizar aquele mesmo ambiente por vinte anos.

Nas paredes, a NBR 15575 estabelece limites de transmitância térmica que dependem da zona bioclimática e — detalhe pouco lembrado — da absortância solar da superfície externa, ou seja, da cor. Fachada escura absorve mais radiação e, por isso, a norma passa a exigir uma parede termicamente melhor para compensar. A escolha da cor da fachada, que parece decisão puramente estética, é também decisão térmica. Junto com a transmitância entra a capacidade térmica: paredes mais maciças acumulam calor e o liberam com atraso, o que ajuda em regiões de amplitude térmica alta — dia quente e noite fria, típico das áreas de altitude de Minas Gerais, incluindo a região de Piranga.

Sombreamento: proteger antes do vidro, não depois

Vidro deixa entrar radiação solar e dificulta a saída do calor — o efeito estufa doméstico. Persiana interna e cortina ajudam, mas atuam tarde, quando a radiação já entrou. Sombreamento eficiente é externo: beiral dimensionado para a latitude, brise, varanda, pergolado, marquise, veneziana ou mesmo uma árvore bem posicionada. Um beiral bem dimensionado na fachada norte barra o sol alto do verão e deixa passar o sol baixo do inverno, quando ele é bem-vindo. É a mesma solução resolvendo dois problemas opostos, sem consumir energia nenhuma.

O que isso significa na prática

Conforto térmico não é item de acabamento, é decisão de projeto. Orientação da planta, posição e tamanho das aberturas, caminho da ventilação, beiral, cor da fachada e detalhe da cobertura custam pouco enquanto estão no papel e ficam caros — ou impossíveis — depois da obra pronta. Quando esses pontos são tratados na fase de projeto, com a zona bioclimática correta em mãos e os requisitos da NBR 15575 verificados, a climatização artificial vira complemento para os dias extremos, e não a única coisa que torna a casa habitável.

Fontes

  • ABNT NBR 15220-3 – Desempenho térmico de edificações: zoneamento bioclimático brasileiro e diretrizes construtivas (revisão publicada em dezembro de 2024)
  • ABNT NBR 15575 – Edificações habitacionais: desempenho (partes 4 e 5, requisitos de desempenho térmico de vedações verticais e coberturas)
  • LabEEE/UFSC – Laboratório de Eficiência Energética em Edificações, publicações técnicas sobre o novo zoneamento bioclimático brasileiro
  • EPE – Empresa de Pesquisa Energética, Atlas da Eficiência Energética no Brasil e nota técnica sobre uso de ar-condicionado no setor residencial brasileiro

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Arthur Silvio